Eu tenho palavra, viu. Tanto tenho que vou contar o que aconteceu na passagem do ano de 2003 para 2004, como prometido. Todo ano era mais ou menos a mesma coisa. Meu pai ia para a casa da minha mãe - e minha casa - uns dias antes do Natal e fazia uma ponte até o primeiro do ano. Minha irmã também ia. A mais nova delas. Eu tenho três. Todas mais velhas. Quando eu falo da mais nova é a mais nova das três, que é três anos mais velha do que eu. E as duas mais velhas nunca iam. Não me pergunte o motivo, a história é longa.
Ficávamos eu, minha mãe, meu pai e essa irmã. Meu pai comprava as frutas do ponche todo ano, que a gente fazia juntos. Picávamos tudo e jogávamos na tirrina para borbulhar na soda limonada e no suco de laranja. Minha irmã não fazia nada da ceia. A parte dela era só estregar, e fazia isso como ninguém. Minha mãe dava idéias, mas não as executava. Meu pai se esforçava pra não se irritar com a minha mãe. Minha mãe não fazia o mínimo esforço para não irritar. E minha irmã fazia todo o possível para irritar todo mundo.
Meu pai sempre teve mania de esperar meia-noite para servir a ceia. E faltando pouco para meia-noite ele dava um jeito de fazer uma grosseria para minha mãe. Nunca soube se ele fazia de propósito ou se era o limite dele mesmo. Nem vou saber, nem quero saber. Mas o clima era sempre o mesmo. E eu queria pacificar tudo antes que chegasse a hora da virada. Como se fosse mudar alguma coisa...
Minha mãe colocava o mesmo LP do Paul Macartney todo ano. É assim que escreve o nome desse homem? Tanto faz. Minha irmã fazia questão de fingir que estava com sono e deitava um pouco antes da virada do ano. Só para o meu pai ficar irritado. Mas, calma, a virada não era em casa. Meu pai curtia ver os fogos na praia. Minha irmã todo ano dizia que não ia, mas acabava indo e quase atrasando meu pai. E ele se irritava, todos os anos. Minha mãe sempre dizia que não ia, e não ia mesmo. Ela não se importava de ficar sozinha na passagem do ano, mesmo tendo quatro filhos, uma neta e um marido. Tudo bem... Não ligo. Fico sozinha. Vão com Deus.
E lá vamos nós até a praia. Eu e meu pai vamos animados. Mentira. Eu não estava nada animado. Minha única alegria era saber que o primeiro minuto do ano que estava para chegar era o momento mais distante do próximo Réveillon. Que alívio. Acabou. Bora para a praia. Contagem regressiva. Fogos, barulho, fuligem no meu olho, cachaceiros e ambulantes. E eu, que passei os últimos 10 dias contornando tudo, estava com um nó na garganta que nem a Desatadora dos Nós desfaria.
Uma observação: Eu havia comprado uma cueca amarela, para tem um ano próspero financeiramente. Mas na verdade não era de dinheiro que eu precisava. Só achava que seria menos difícil tudo aquilo se eu tivesse uma vida abastada.
Quando bateu a hora zero, meu pai deu o velho grito e me apertou nos braços, dando tapas nas costas. Igualzinho meu avô fazia com ele. Eu lembro. Meu pai é muito carinhoso, e, com ou sem defeitos, desejava sinceramente o melhor pra gente. Na virada e no ano todo. Eu, na hora que ele me abraçou, chorei. Ele não viu, pois eu estava com o rosto por cima do ombro dele. Engole o choro! Não estraga a festa dos outros. Meu pai nem percebeu nada. Abraçou minha irmã, eu também. Voltamos pra casa, abraça a mãe, repete os votos. E não desata o nó da insatisfação com a vida.
Para me aliviar de todos aqueles dias que eu contive o estouro da boiada com uma linha de costura, fui na festa de um amigo que morava na periferia, mas numa casa com piscina. Lá ia ter muita gente que eu não gostava. E tinha medo de ser maltratado por elas. Mas me convenceram e lá fui eu. A mãe de uma amiga nos levou de carro. Acho que estávamos em 8 no popular. Amarfanhados. Eu estava no meu limite de segurar os choros engasgados de tantos dias (ou anos? Tanto faz). Quando faltava uma quadra para chegarmos na casa da piscina, voltou aquela sensação que eu tinha às vezes. A de morte iminente. Saí do carro cambaleando, invadi a casa do cara e me atirei no sofá, pedindo ajuda por estar passando tão mal. O pai dele tinha um desses medidores de pressão. E diagnosticou que eu não tinha nada. Mesmo assim, não sei porque, quando me aboletei no sofá da sala, me senti melhor. Pronto. Nova neurose. Achava que se saísse dali, voltariaa sentir a morte fungar no meu cangote.
Fiquei lá a festa toda. Pensava em levantar, mas meu traseiro parecia pesar toneladas. Medo. Muito medo. Olhava pela janela e o rapaz mais popular da rua estava sem camisa encoxando as vadiazinhas do bairro, depois de beberem vinho barato no gargalo do garrafão. Ele com a bermuda saliente e elas com os bicos dos peitos ouriçados. Tudo ao som de música de mau gosto e calibrado com bebida vagabunda e cigarro de segunda linha.
Eu só queria que eles fossem embora ou morressem todos afogados, para eu passar por ali sem olhar para ninguém e voltar para casa. Para matar tempo, enquanto o pessoal não cansava de roçar, dormi. Enxarquei o sofá de suor. Minha cara colocou numa almofada de napa estampadinha.
Como insistia em não mexer em tudo aquilo que afligia minha cabeça, inventei o motivo do mal estar: A cueca amarela. Deus estava me castigando por eu ser tão ambicioso. Querer passar a virada do ano com uma roupa que me trouxesse dinheiro? Desgraçado! Como ousa ser tão mercenário? Agora sua, filho de uma puta. E treme, como se fosse morrer. Maldita roupa do Réveillon. Foi culpa dela. Cheguei em casa cheirando azedo. E antes mesmo de dormir, coloquei toda a muda num saco de supermercado e deixei para o lixeiro recolher. Meus problemas acabaram. Era só me livrar da roupa. E nunca mais sentiria aquilo. Graças a Deus. E me perdoa, Deus. Por favor, me perdoa. Faço qualquer coisa, mas tira esse coisa que gela meu peito e me arrepia a espinha de medo. Tira. Por favor, meu Deus.
O nunca mais durou até o dia seguinte, quando tive que ir na padaria com a minha cara lisinha de menino que não pega sol e come direitinho. Com essa cara de bundão. E com medo dos bebuns do boteco olharem duas vezes para mim e enxergarem o que não precisava olhar mais de uma. E jogassem tudo aquilo que eu era e não queria ser nas minhas fuças. E foi assim por um bom tempo. Tanto tempo... Esse era o sétimo ano dessa angústia. Eu disse sétimo. Sim, começou em 1997. Na verdade começou antes, mas eu conto desde 97 por ser a fase mais crítica. De 1997 a 2004. Sete malditos anos, puta que o pariu. No dia primeiro, na hora de ir na padaria, eu tive a certeza que o causador do medo não era a cueca amarela. O que não sabia é que esse era o sétimo ano de sofrimento. E último. Mais precisamente, faltavam 6 meses e 10 dias para o começo do fim do medo-filho-da-puta... Grandessíssimo filho de uma puta. Mais alguns meses e tchau cara de bundão. Mas isso eu conto uma outra hora...
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