Sunday, August 19, 2007
 

A irmã mais velha do meu pai, que lidera a família, ligou lá em casa para dizer que o vô não estava bem. Vinte anos antes, tinha operado o coração, e era ele de novo que estava falhando. Confirmando a previsão do médico, que disse exatamente quanto a recauchatagem ia durar. Por que não fizeram mais uma reforminha um ano antes? Aos 19? E por que foram contar pro vô a perspectiva de vida dele? Imagina: viver 20 anos em contagem regressiva. Por mais que o coração durasse 30, a cabeça já estava preparada para minar o corpo em 20 anos. Programado.

Quem ia duvidar do Jatene? Eu. Com 9 anos nem sabia quem ele era. Não estava nem ligando. O Vô era muito mais legal, muito mais inteligente e, tenho certeza, ganharia dele no baralho.

O Vô me ensinou a jogar buraco. Meu pai odiava jogos. Sempre falava isso pra gente quando vinha com um embrulhado no Natal. Assim já se livrava de jogar de antemão. Era regra: dou o jogo. Não jogo o jogo. Mas o vô jogava, principalmente buraco. E ele adorava. E me adorava. Tenho certeza que eu era o prefeirdo. O que não era muito difícil dentro das opções de neto.

A aposta do jogo de cartas era um saco de bala, de framboesa, comprado no mercadinho Tamandaré. Minha tia recolhia a toalha de linha da mesa de vidro e a gente jogava. O vô sempre ganhava. Não nos tratava como idiotas, fingindo que não sabia jogar. Eu pagava o saco de balas, e ele dava tudo pra mim. Vixi. Mudei de assunto.

Eu estava falando da minha tia, que ligou lá em casa para avisar que o Vô não estava bem. Entramos no Corcel bege do pai e fomos visitá-lo. Eu levei um baralho, para animá-lo. Cheguei lá, ele estava deitadinho na cama do meu primo. Segurou na minha mão, três vezes menor do que a dele, e três vezes mais fraca. Ainda lembro da mão dele bem molinha. Macia. Uma característica marcante nos homens da família.

Ele não ia poder jogar. Nem comer bala. Tadinho.

A estante da sala de casa tinha uma espécie de bar, onde minha mãe guardava umas pastas. A porta era como as de castelo, que abrem para frente, pendente por correntes. Abri a porta e coloquei todos os santos de casa ali, junto com uma vela acesa. Rezei e prometi só apagar quando ele melhorasse. Minha mãe morria de medo de vela acesa em casa. Mas deixei uns dias. Acabei apagando. Pedi perdão e apaguei. Acho que fui compreendido. O santuário lá montado. Cheguei da escola, dei de cara com os santos. Já fazia mais de uma semana que eles estavam ali. Recolhi tudo e fechei a porta. Nã sei porque. Só sei que fiz.

No dia seguinte, um sábado, meu pai saiu cedo de casa com a jaqueta de couro dele. Quando eu perguntei onde estava indo, ele respondeu: pergunta pra sua mãe. Ela veio com um papo esquisito. Disse que tinha uma coisa para contar. Dei uma bufada séria, imitando meu pai quando tinha um problema, e afirmei: Já sei. O vô voltou para a UTI.

Não, filho. O vô foi embora. O nariz ardeu. Eu não esperava. O Jatene devia jogar búzios. Ia ficar mais rico ainda. Acertou em cheio. Ou ajudou meu vô a criar um prazo de validade para si mesmo sem perceber. Não fui ao velório, nem ao enterro. Nunca fui, nem em um, nem em outro. Nunca mais joguei baralho com o vô. Nem senti a mão pesada dele no meu cabelo liso. É, pesada. Com saúde, pesada. Ele adorava agradar. Nunca mais comi o feijão do Vô. A receita mais famosa da família. Fiquei só na lembrança do casarão, do pomar, do balanço de ferro. Da gata de 18 anos que dormia no alto da estante, a Cissa. E da mãe mole que eu segurei dias antes dele morrer.

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3 Comentários:

 

 

 

At 9:30 AM, Anonymous Erika said...

Lindo texto!!!!
Me fez lembrar de uma reda�o q fiz na �poca dos simulados do 3o. ano do 2 grau!!Faz tempo....heehhehehehe....esvcrevi uma narrativa falando do meu av�...lemro q foi a melhor a reda�o(2o. a professora) da sala!Como eu queria ter ficado com aquela reda�o...mas ela n me devolveu!!!
Me senti p�ssima qd meu av� se foi...e infelizmente fui p/o vel�rio, enterro...e at� hj a lembran�a n sai da cabe�a!!Depois disso nunca mais fui a vel�rio, nem a enterro de ningu�m!!Me criticam por isso!Mas antes ter apenas a lembran�a da pessoa qd estava bem, do q aquela lembran�a triste q o tal cerimonial deixa...

 

At 12:56 PM, Anonymous Ale said...

Parabéns por ter convivido com uma pessoa tão especial.

Cresci com meus avós maternos e sei o que foi me despedir de cada um deles nessa hora ... história pra se contar e guardar no coração !


Lindo final de semana pra você


Beijos

 

At 11:40 AM, Anonymous Anonymous said...

Dentro do seu estilo, lindo o texto sobre seu vô. Lembro que ele adorava livros e construiu uma enorme biblioteca, na sua casa, porque gostava de aprender. Uma vez, teve uma venda, mas não deu muita sorte... porque, quando vinha uma mãe pobre pedir leite fiado para dar ao filho, ele não tinha coragem de negar. Grande coração de homem pelo qual sua vó era apaixonada. Vô alegre, vô bom, vô inteligente... que mais? Que sorte a sua ser o neto dele, não é mesmo?
Beijos

 

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