A irmã mais velha do meu pai, que lidera a família, ligou lá em casa para dizer que o vô não estava bem. Vinte anos antes, tinha operado o coração, e era ele de novo que estava falhando. Confirmando a previsão do médico, que disse exatamente quanto a recauchatagem ia durar. Por que não fizeram mais uma reforminha um ano antes? Aos 19? E por que foram contar pro vô a perspectiva de vida dele? Imagina: viver 20 anos em contagem regressiva. Por mais que o coração durasse 30, a cabeça já estava preparada para minar o corpo em 20 anos. Programado.
Quem ia duvidar do Jatene? Eu. Com 9 anos nem sabia quem ele era. Não estava nem ligando. O Vô era muito mais legal, muito mais inteligente e, tenho certeza, ganharia dele no baralho.
O Vô me ensinou a jogar buraco. Meu pai odiava jogos. Sempre falava isso pra gente quando vinha com um embrulhado no Natal. Assim já se livrava de jogar de antemão. Era regra: dou o jogo. Não jogo o jogo. Mas o vô jogava, principalmente buraco. E ele adorava. E me adorava. Tenho certeza que eu era o prefeirdo. O que não era muito difícil dentro das opções de neto.
A aposta do jogo de cartas era um saco de bala, de framboesa, comprado no mercadinho Tamandaré. Minha tia recolhia a toalha de linha da mesa de vidro e a gente jogava. O vô sempre ganhava. Não nos tratava como idiotas, fingindo que não sabia jogar. Eu pagava o saco de balas, e ele dava tudo pra mim. Vixi. Mudei de assunto.
Eu estava falando da minha tia, que ligou lá em casa para avisar que o Vô não estava bem. Entramos no Corcel bege do pai e fomos visitá-lo. Eu levei um baralho, para animá-lo. Cheguei lá, ele estava deitadinho na cama do meu primo. Segurou na minha mão, três vezes menor do que a dele, e três vezes mais fraca. Ainda lembro da mão dele bem molinha. Macia. Uma característica marcante nos homens da família.
Ele não ia poder jogar. Nem comer bala. Tadinho.
A estante da sala de casa tinha uma espécie de bar, onde minha mãe guardava umas pastas. A porta era como as de castelo, que abrem para frente, pendente por correntes. Abri a porta e coloquei todos os santos de casa ali, junto com uma vela acesa. Rezei e prometi só apagar quando ele melhorasse. Minha mãe morria de medo de vela acesa em casa. Mas deixei uns dias. Acabei apagando. Pedi perdão e apaguei. Acho que fui compreendido. O santuário lá montado. Cheguei da escola, dei de cara com os santos. Já fazia mais de uma semana que eles estavam ali. Recolhi tudo e fechei a porta. Nã sei porque. Só sei que fiz.
No dia seguinte, um sábado, meu pai saiu cedo de casa com a jaqueta de couro dele. Quando eu perguntei onde estava indo, ele respondeu: pergunta pra sua mãe. Ela veio com um papo esquisito. Disse que tinha uma coisa para contar. Dei uma bufada séria, imitando meu pai quando tinha um problema, e afirmei: Já sei. O vô voltou para a UTI.
Não, filho. O vô foi embora. O nariz ardeu. Eu não esperava. O Jatene devia jogar búzios. Ia ficar mais rico ainda. Acertou em cheio. Ou ajudou meu vô a criar um prazo de validade para si mesmo sem perceber. Não fui ao velório, nem ao enterro. Nunca fui, nem em um, nem em outro. Nunca mais joguei baralho com o vô. Nem senti a mão pesada dele no meu cabelo liso. É, pesada. Com saúde, pesada. Ele adorava agradar. Nunca mais comi o feijão do Vô. A receita mais famosa da família. Fiquei só na lembrança do casarão, do pomar, do balanço de ferro. Da gata de 18 anos que dormia no alto da estante, a Cissa. E da mãe mole que eu segurei dias antes dele morrer.
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