Quando eu tinha uns 11 anos, eu morava em um apartamento com meus pais e uma das minhas irmãs. No prédio, não era permitido animais. Bom, ao menos era o que eles alegavam cada vez que eu queria tirar um bichinho da rua. Confesso que hoje me sinto meio tonto, pois minha vizinha de frente tinha um cachorro e eu nunca associei as coisas. Muito bem, passou. Nessa época, meus pais estavam reformando uma casa, no litoral, para nos mudarmos. E eu logo pressionei: vou querer um bichinho.
Nunca gostei de ver os animais sendo maltratados ou largados na rua. Morria de dó. Assistia meus amigos da época, que tinham a mesma idade que eu e jum pouco mais de demência, maltratando os coitados. Em especial, lembro do Marco. Só para dar uma idéia da jóia, ele transnformou o nome próprio em adjetivo. Isso. Aletrou a gramática. Porque toda vez que queríamos dizer que alguém havia tido um comportamento estúpido, a turma batizava de Marco. Ou, soltava o chavão: Que marquíce você fez, hein!
Uma das marquíces do Marco era com a tartarua que vivia na sua casa. Pasmem: ele era tão Marco que batia na tartarug para ela correr. É de dar nos nervos... Eu sei. Como explicar isso a ele sem dar um murro de derrubar os dentes na sequência? Também não sei. Desisti de explicar e de distribuir os socos, afinal, ele era três anos mais velhos do que eu (uma eternidade quando se tem 11).
Pois tracei um plano. No final do ano, nos mudaríamos para a casa que estava em reforma. A tartaruga ficava na garagem do Marco, e tinha as fechaduras dos portões enferrujadas. Enquanto meus pais colocariam as malas no carro, eu invadiria a garagem e roubava a tartaruga. Perfeito! Ia ser de manhã bem cedo, pois meu pai é tão ansioso quanto eu. Ninguém estaria acordado às oito de um sábado. Esconder a tartaruga no carro seria fácil. Elas são discretas.
A hora da mudança foi se aproximando. Minha mãe me deu um cachorro! Adorei... A reforma da casa se prolongou. Tivemos que dar o bicho. Tudo bem. O plano estava de pé, agora, com um furto a mais: o Mike. Cada dia mais perto da viagem, eu estava preocupado. Nada poderia dar errado. Como eu esconderia o Mike no carro do meu pai eu não sabia, mas nisso eu pensava depois.
O pseudo-proprietário do Mike brincava de jogar ele pra cima. Quando ele estava sóbrio, tudo bem. Quando ele saía da marcenaria com a bixiga, tomava umas e outras no bar do Julião e lá ia ele brincar com o Mike, só que sem o mesmo reflexo. O coitado do cachorro caía no chão. Eu rezava para que ele saísse do boteco e fosse cortar madeira. Com sorte, ele amputaria um dos braços e deixaria o cão em paz. Nunca aconteceu...
O fato é que numa das quedas o cachorro morreu. Chorei demais. Xinguei minha mãe. A culpa é da mãe. Conhece essa frase? Não? Tudo bem...
O plano estava de pé. A tartaruga seria salva. Acordamos e começamos a carregar as coisas para o carro. O caminhão de mudança atrasou. Quebrou! Puta merda. Minha mãe se atrasou também, claro. Sempre tem mais um xixi. Quando descemos, a rua já estava movimentada. Já era meio da manhã. Dava pra ouvir as panelas de pressão chiando, avisando que o almoço estava próximo. Lá fui eu até a garagem dos portões estropiados. Todo mundo acordado. A mãe na porta. Tragédia! Como eu ia roubar a coitada da bicha na frente da Marca Mãe? Impossível. Minha mãe já me chamava, puxando o "r" na última letra - Juniorrrrr. Como eu morria de vergonha disso... E acenava com o braço tão violentamente que é um mistério ela nunca ter destroncado o ombro. Larguei a tartaruga para trás. Fui chorando embora. Que bandido mixuruca! Estou complexado até hoje. E espero, Deus, que a tartaruga continue viva e lenta, longe do Marco, que eu sei que está tão vivo e tão lento como sempre foi.
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