Eu sei. Eu falei que eu adorava ficar sozinho. Tá bom. Mas o que eu posso fazer se arrumei uma pequena companhia? A bebê preta chegou há uns dez dias. É uma gata, de três meses, monocromática. E aí me perguntaram: Mas uma gata preta? Claro! Tenho uma quedinha pelos marginalizados, como eu. Ninguém quer adotar um bichinho preto. Tem tonto que diz que dá azar. O mesmo tonto que não fala essa palavra, fala "má sorte". Ai meu Deus, eu mereço tanta chucrice.
Hoje acordei mais cedo, quando senti o tremor do ronronado da Cher no meu rosto. É. O nome dela é esse. Mas eu não consigo chamá-la de outra coisa que não seja de bebê pretinha. Ela veio logo cedo me dar uma lambida áspera. de boma dia. E não era fome, não. Porque o pratinho dela estava cheio. Era carinho. Virei de frente pra ela, apertei a bichinha no meu peito e dormi mais um pouco.
Quando resolvi saltar da cama, ela já tinha comido e estava correndo pela sala. Um circuito: sofá, chão, mesa de jantar, por baixo do computador e sofá de novo. Ficava driblando minhas pernas enquanto eu andava pela casa recolhendo minhas tralhas para sair. Quando fui fechar a porta, olhei pela fresta e ela estava sentada, com a cabeça pendida pra direita, me encarando. Percebeu que eu estava de saída. Tadinha. Ficou tristonha. Calma, bebê pretinha, eu volto. Fechei e saí.
Não inventa! Pra que colocar um bicho em casa? Escutei. Tem gente que faz filho, oras. Desde o primeiro dia a bebê pretinha não fez cocô nela mesma. Também não ficou chorando querendo abocanhar meu mamilo. Não precisei dar banho, nem polvilhar talco no rabo. E ainda ganhei uns beijinhos e companhia na cama.
Tenho certeza que ela não vai pedir meu carro emprestado, não vai chegar bêbada em casa, nem fumar maconha na adolescência. E vai continuar dormindo comigo. E depois ainda falam que o gato é interesseiro. Filho, não. Que lava o carro pra depois batê-lo no poste.
E como acalma ter um bicho em casa. Uma vida te esperando. Bem-vinda, bebê pretinha.
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