Monday, June 25, 2007
 

Suco de laranja

 

Noite passada eu tive uma sensação horrível. Não posso dizer que era um pesadelo, pois já tinha acordado. Pensando bem, nem posso dizer que era noite, pois a luz do sol de inverno já entrava pelo vitrô da cozinha e rebatia bem no meu olho, no quarto que um dia foi meu, na casa da minha mãe. A mesma luz que entrou no meu olho durante os quinze anos que eu dormi naquele cômodo, naquela casa, naquela cidade. Quando senti o incômodo da claridade, abri os olhos ainda pesados de quem dormiu tarde, enxerguei o criado mudo, que sempre esteve ali, e a porta do quarto - de onde se vê o vitrô. Nem sei dizer quantas vezes essa foi a primeira imagem do meu dia, pois, já disse, foram quinze anos dormindo e acordando ali. Só sei que a primeira coisa que me veio à cabeça foi: "Perdi de novo a aula. Vou reprovar!". E me deu aquele engasgo. Aquele, sabe? Só sabe se um dia teve que ir à lousa, na frente da classe toda, resolver uma equação matemática. Passados alguns segundos, percebi que não estava mais na escola e nem morava ali. Era apenas uma noite, e uma manhã, com a luz entrando pelo vitrô. Mas a sensação, de tão real, me fez lembrar o quanto fui infeliz. Era insuportável acordar e pensar que precisava ir para a escola encontrar aquelas pessoas que não tinham nada a ver comigo e me maltratavam. O gosto daquele suco de laranja instantâneo, na caneca de plástico azul royal, carcomida, que me coçava o beiço, parecia ter voltado à língua. A sirene do intervalo, a camiseta puída do uniforme, o tênis escangalhado, com um lado mais gasto que o outro, porque eu pisava torto. A calça jeans e o casaco azul, todo dia os mesmos. O caminho para a escola, com o frio da praia me cortando a cara, e o medo daquela molecada da rua de baixo que era fissurada em me bater. O mesmo gosto da bolacha maizena meio molenga voltou a minha boca. Aquela bolacha que a merendeira despejava um punhado na minha mão, segurando com a mão dela, de pele grossa, de tanto roçar no rodo e lavar louça com sabão e água fria, com as unhas pintadas de vinho sintilante. Parece que a sensação que eu tive de manhã, olhando o criado mudo e a porta daquele quarto que fora meu, fazia eu escutar os outros alunos da classe me chamando por aquele apelido que eu odiava tanto. Que cada vez que soava, me ardia com tanta violência o nariz que os olhos não conseguiam ficar completamente secos. A impressão que eu tive, clara, é que mais um dia naquela escola me esperava, e que eu ia tomar o suco de laranja instantâneo, mais uma vez. Que eu ia ter que sair com frio, pedalando na caloi verde. Como eu odiava aquilo, meu Deus do céu, só o senhor sabe mesmo. Levantei, e nessa hora já estava ciente de que não precisava ir para a escola. Fui até a garagem, de cueca e camiseta da época em que eu morava ali. Fumei um cigarro e agradeci por ter acabado tudo aquilo. Saudades da inocência da minha infância e adolescência, nenhuma. Ainda bem que o tempo não volta. Que alívio. Voltei para o quarto, fechei a porta, para não ver o vitrô. Deitei mais um pouco... Em cima do criado, coloquei a minha mala, para me lembrar que só estava de passagem. E que eu fiz da minha vida o que quis. Não tenho mais apelido e, mesmo que tivesse, não me faria chorar. E, na minha casa, não entra caneca de plástico, nem suco de laranja instantâneo.

______________________

 

5 Comentários:

 

 

 

At 10:25 AM, Anonymous Frávia da Silva said...

"Não é suficiente entender. É preciso aprender. E aprender é repetir até ser capaz de fazer por si mesmo."
Não sei se vc lembra desse trechinho... mas acho q cabe.
É bem vc hj. Alias, hj é mto mais do que vc né.... é só o q vc determina.

Bju
Ti amu.

 

At 1:07 PM, Anonymous Luciano Sabino said...

Gosto muito dos seus textos.
Gosto muito do Augusto, também.

 

At 6:26 PM, Anonymous Anonymous said...

Menino,
Seus textos conseguem me transportar para uma realidade lúdica, que mal percebo quando eles terminam! Vlad, so te peço, continue escrevendo e mantendo momentos de alegria e prazer aos que amam te ler. Tive uma historia parecida, mas ao contrario de vc, sinto saudades da minha adolescência e não da minha infância...Minha primeira caloi também era verde!
Beijos humanos!
Marcela Melo

 

At 4:20 PM, Blogger Aída said...

O tempo é realmente o senhor da razão, eu também não tenho saudade da minha infância muito menos da adolescência. Quase não tenho recordações boas dessa época, pra mim minha vida começou aos 25. Ah, na minha casa também não entra caneca de plástico

 

At 1:39 AM, Blogger silvia61 said...

eu também não tenho saudades nem da minha infância e muito menos de minha adolescência. Também odiava a escola. Belo texto.

 

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